através
das incomodas cortinas eu vejo...
alguns
passarinhos
pousados
em fios paralelos
estendidos de um poste a outro
como
em uma partitura
escrevendo
um canto
deslumbrada nesse momento
leio
a melodia
e
a escuto com encanto
por outro lado
observo
passinhos
ligeiros
de
uma formiguinha travessa
que
atravessa
de
uma ponta a outra
a
imensidão do papel em branco
caço
uma palavra
uma
única palavra
que
comece meu texto
entre
tantas palavras
uma
que explique o sentimento
que
aperta o meu peito
ver
a brasa
consumir
devagar o cigarro
acalma
mas
ver o braseiro
consumir por inteiro o pequeno toco
leva
ao desespero
uma
sensação
de que o tempo é pouco...
de que o tempo é pouco...
então
me
dou conta
de que o sol já se foi
mas o luar está me observando
e
a poesia
que lateja dentro de mim
está
me esperando
de
tempos em tempos
uma
rajada de vento
levanta
poeira
e
me cega
mas
através das incomodas cortinas
através das incomodas cortinas
que tapam os meus olhos
eu vejo
que
não vou a lugar nenhum
se
nada faço
mas
se eu tento
uma
hora eu me acho
Jussara Pires