segunda-feira, 23 de novembro de 2015

FARDO DOS CONDENADOS



a espinha
 atravessa 
 a garganta
mas não o alimenta
remova-a!

o cabresto
enfinca
 no rosto
mas não é o seu guia
arranque-o!

descarregue
a carga
que traz 
em seus ombros
ela não fortalece
 só o atrasa

afaste
da boca
esse doce veneno
ele não é remédio
e um dia
o mata

livre-se
dessas correntes
que envolvem seu corpo
elas não o abraçam

acalme
seu peito
com amor verdadeiro
sempre 
se queira primeiro

pegue sua trouxa
levante sua bunda daí

ponha o pé na estrada
mova-se!

os grilhões
que prendem sua alma
estão em sua palma

liberte-se!

Jussara Pires

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

TIRO NO PÉ



Passa
a água contaminada
que contamina a flora
que contamina a fauna
que contamina a vida

passa
o funebre cortejo
de milhares de peixes
de centenas de corpos
e a esperança  perdida

passa
a lama  fedida
nada para comer
nada para beber
e o rio que era doce
vira carniça

e a vida...
para!

Jussara Pires




sexta-feira, 6 de novembro de 2015

NOS BRAÇOS DE MORFEU



Doces odores
da murta
do alecrim
e da mirra
incendiavam o jardim

o balanço suave
da rede
e o som das árvores
ao vento
embalavam a criança
em um sono sem fim

a brisa
 de momento em momento
acariciava sua pele
e revolvia as folhas secas
 da acácia
em um redemoinho
dançante

em um canto
uma singela obra-prima
uma fonte

por um pote
a água escorria
entre as mãos
de uma camponesa
deslumbrante

do pote
a água caía
em uma tigela rasa
onde dois cardeais
chilreando
e batendo suas asas
faziam um festim
de pura alegria

da tigela
a água descia em cascata
entre
heras
samambaias
e belas-emílias

desembocando
em um lago de seixos 
que refletia
os últimos raios do dia

já no lago
resvalava
em perfeita sincronia
um cardume
de pequenos peixes
coloridos

e
apesar dos olhos fechados
a criança sorria
com a poesia
desse paraíso

Jussara Pires


domingo, 25 de outubro de 2015

O SILÊNCIO



Nem sempre significa paz
pois a paz
não vem do silêncio
mas sim
do barulho que o silêncio faz

é no silêncio
que choramos as nossas tristezas
lamentamos as nossas derrotas
sorrimos as nossas alegrias
e gritamos as nossas vitórias

é no silêncio
que refletimos as nossas atitudes
e enfrentamos os nossos monstros

e é no silêncio
 que traçamos novas estratégias
 para vencermos as nossas guerras

o silêncio
nem sempre significa paz
pois a paz
não vem do silêncio
mas sim
do barulho que o silêncio faz

Jussara Pires



terça-feira, 13 de outubro de 2015

VIUVINHAS




Borboletas não
viuvinhas!
ela batia palmas
adorava viuvinhas

plantei um pé de acácia
na porta da casa
que enchia de viuvinhas
só para ver o sorriso
da menina

traquina
valente
sempre sozinha
e desde  pequena
nada temia

era muito levada
voltava
com um olho roxo
mas o desaforo
ela não levava

tudo queria saber
gostava de ler
e a língua presa
não era motivo
para não aprender

ela vestia ‘pacote’
em vez de capote
e usava ‘lidificador’
para fazer um suco forte

por que?
sempre perguntava
o que é isso?
sempre curiosa
por que não?
nunca aceitava
e por que sim?
sempre duvidosa

e sempre dizia
“quem pergunta o porquê
será esperta quando crescer”

mas
quando ficava doente
e sempre ficava doentinha
eu entristecia

como eu sofria
e muito mais que chorar
por dentro
eu morria

por muitas vezes
perdi a esperança
de vê-la crescida

mas
ela sobreviveu
porém
a pequena
pouco cresceu

por que?
ela é a minha eterna menina!


Jussara Pires



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

CHAGAS



roendo por dentro
moendo por fora
estranhas entranhas mexendo

retorce
profanam
saindo
e voltando
vermes no ventre comendo

lombrigas compridas
emaranhados filetes
perfuram dançando

atravessam sangrando
traços de morte 
morrendo

pulsa
pulsa
como chagas abertas
doendo
fétidas feridas
que deixam profundas marcas

mas passa
como tudo passa
mesmo que passe pulsando

depois que tudo passa
as chagas
não passam de lamentos
e as fétidas feridas
é o princípio da cura 
que exala

a morte
nem de longe passa
e as profundas marcas
são 
o que se tem
de mais precioso da vida

por isso
 sem lamentos
mesmo que esteja doendo

Jussara Pires



foto de: Priscia Pires

domingo, 2 de agosto de 2015

PASSARINHO



Olhas, passarinho
a gaiola nova
que comprei para ti

olhas,  passarinho
quantas coisas lindas
que da  gaiola dá para ti ver 

as árvores lá fora balançam
ao sabor do vento
e o sol aquece ao amanhecer

comes, passarinho
não tens fome? 
o alpiste é o mais caro
que pude obter

bebes, passarinho
não tens sede?
a vasilha é de ouro
só para ti enobrecer

bate tuas asas, passarinho
porque tens tudo
que eu posso oferecer

mas por que tu não cantas, passarinho?
tua vida é tão boa!
todo mundo gostaria de ter

não gostas daqui, passarinho?
mas não fiques triste
senão
também vou entristecer

vou abrir tua gaiola
pronto!
agora estás livre

a tua porta está aberta, passarinho
então por que não voas?
não era tudo
o que querias fazer? 

a liberdade assusta, passarinho?
pois aqui tens tudo
para sobreviver

tens comida de graça
tens casa
um teto para ti proteger

mas não te iludas, passarinho
as grades que te protegem
também podem te prender

sejas livre, passarinho
vás embora daqui
porque aqui
eu também não canto
não canto...

vás, meu bichinho
e leves contigo
um pouco de mim




Jussara Pires

quarta-feira, 24 de junho de 2015

EITA, SÃO JOÃO BOM DANADO!


Bandeirolas e balão
colorindo o salão
palhas de coqueiro
enfeitando o terreiro

a mesa
toda tomada
de amendoim cozido
amendoim torrado
canjica
lelê
pé de moleque
pé de moça
queijada
e cocada
eita!

e tem também mungunzá
e bolo de aipim
de carimã
de tapioca
e de fubá
sem falar
do milho assado na brasa
do milho cozido na palha
bom-bocado
pamonha
e quindim

aí vem a cachaça...
o quentão
a cerveja gelada
e licor de tudo que há
jenipapo
tangerina
uva passa
tamarindo
cajá
e cravo

nossa!
que pecado!

para a molecada tem
bomba
chuvinha
traque de massa
vulcão
e estrelinnha

e na brasa
 o churrasco assa
e cheira
humm!
e como cheira!
é porco
é carneiro
picanha
costelinha
com farofa
arroz carreteiro
e uma saladinha

e o Gonzaga chora
lá fora
um bom baião
o tilintar do triangulo
o surdo da zabumba
o reco-reco animado
e a sanfona que deslumbra

começa então
o arrasta pé
com um bom xaxado

a moça chega
toda faceira
para dançar quadrilha
com um laço no cabelo
exalando perfume
da flor de laranjeira

o cabra assanhado
toma banho com caco de telha
e vem todo esticado
até a bota brilha
com tanta brilhantina  

e em volta da fogueira
o forró castiga

eita, coisa boa, sô!
pena São João
não ser a vida inteira!

Jussara Pires


Foto de: Jussara Pires


sábado, 13 de junho de 2015

ESTAMPIDO!

ESTAMPIDO!

Mãos erguidas
acaloradas vozes
protestam
querem respeito
querem justiça

de repente uma explosão
 gente correndo
para todos s lados
um pé descalço
uma sandália que fica
óculos quebrado
bandeirolas caídas
que embaraçam
em pernas corridas
em meio a fumaça
e olhos ardidos

gritos
empurrões
uma criança que solta a mão
uma mãe que vai com a multidão
empurrada
na enxurrada
 que passava no lugar certo
na hora errada
procura o filho
 desesperada

de repente
uma bala perdida
encontra
um alvo perfeito
um peito
quem é a vítima?
quem é o culpado?
mas a quem importa?

lá vai a mãe
com o coração na mão
espedaçado 
como vidro trincado
pura ilusão
pensar que ele fosse blindado

chora
o choro sentido
uma mãe que perde um filho
e ninguém oferece a mão
é só mais um corpo
estendido no chão
mais um anjo
que vai para o céu
e o sangue que borbulha
borbulha em vão

o descanso de quem vai
e o descaso de quem fica

Jussara Pires



domingo, 31 de maio de 2015

EU SOU ESTRELA



Hoje eu me encontrei
achei eu mesma
 estava perdida
enganada
no tempo
na vida
na lida
por todo mundo
e por mim mesma

eu
 que nasci estrela
e por ser estrela
 eu brilhei
eu era tão pequenina
mas
os planetas à minha volta
incomodei

disseram-me
que brilhar não podia
por isso
eu me apaguei
pensei por mim mesma
que minha luz era errada
então me fechei
e igual aos outros
só refletia
mas nunca
nunca
me conformei

eu queria
deixar minha luz liberta
queria brilhar
brilhar
brilhar...
brilhar!
mas com medo eu fiquei
da minha própria luz
e ofuscada continuei

mas por fim
eu entendi
o que incomodava
não era o meu brilho
mas sim
o meu tamanho
eu era pequena
mas mesmo assim
eu brilhava
mesmo assim
iluminava
muito mais
que a calda de um cometa
imagina então os planetas!

que sem brilho
opacos
e sem vida
só giravam
giravam
e apenas refletiam
a luz
de quem podia brilhar
assim como eu

então eu percebi
eles tinham inveja de mim
eles tinham medo de mim
por isso 
não queriam ver a minha luz
não queriam que eu iluminasse
por se sentirem pequenos
apesar de
a pequena ser eu
mas
com uma grande luz

de agora em diante
não vou mais me conter
eu vou brilhar
vou brilhar
brilhar
brilhar...
e eu sempre brilharei
por que?
porque
eu sou estrela!

Jussara Pires


sábado, 9 de maio de 2015

NEM SEMPRE MÃE É TERNURA



Um nó na garganta
se planta
todas as vezes que eu quero falar sobre você
tantas foram as nossas brigas
nossas birras
enfadonhas
medonhas
repletas de palavras sentidas
cheias de magoas
que foram ditas
e outras
reprimidas

sua passagem em minha vida
deixou-me feridas
mas que fiquem esquecidas
escondidas
dentro de mim

pois elas
já foram curadas
cicatrizadas
tanto as doloridas
como as engraçadas

só trago as lembranças
de suas palhaçadas
canduras
que me fazem rir

e as que lembram
o que não devo repetir

minha mãe
você nem sempre foi ternura
nem sempre foi carinho
mas também
nem sempre foi fácil o seu caminho
se minha vida não foi como eu queria  
a culpa não foi sua
pois
entre acertos e erros
você deu o melhor que tinha
para me oferecer

enfrentou tormentas
atravessou espinhos
para que só tivessem flores
em meu caminho

agradeço
mãe

por me fazer existir


Jussara Pires

Foto de: Jussara Pires

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CASAMENTO



É mais que a união de duas pessoas
pois juntos com elas vão
o caráter
os costumes
e a educação
assim como as famílias
que vão como malas
querendo ou não

quando almas gêmeas
se encontram
entrelaçam-se
embaraçam-se
loucas de desejos  

os olhos apaixonados
só enxergam
a beleza
e o encantamento

os ouvidos apurados
só ouvem
o gorjeio
que embala
o deslumbre do momento

e nunca ouvem um conselho
ou ensinamento

mas
ao passar dos dias
meses
ou anos
um dia
a paixão inicial esfria
a beleza e o deslumbre acabam
e os pássaros já não gorjeiam
grasnam
gralham
e perdem o encanto

só restando a certeza
da união precipitada
ou 
do amor verdadeiro 
que nunca acaba

então
cada um vai se acomodando
pelos cômodos
ou
em cada canto do pensamento

entre os pratos
e talheres bagunçados
ou
em respeito mútuo

nas roupas sujas
desarrumadas
pela casa
ou
em comprometimento

nas escovas de dentes
postas lado a lado
ou
em juramento

e dentro desta malga
de desventura ou contentamento
às vezes
por fim
só resta as crias
que mantêm o casamento

por isso
a união de duas pessoas
deve ser com discernimento
sem perder a essência
do individualismo
em seu envolvimento
e amando cada instante
os doces momentos
pois o que passa
passa
e se perde ao vento   

Jussara Pires