quarta-feira, 25 de março de 2015

O BEIJO DA MORTE



Ela me ronda
coberta em seu manto negro
finjo que não a vejo

ela me sonda com sua lâmina afiada
eu me esquivo

ela me envolve em seus braços compridos
eu me desvencilho

ela me cobre com sua mortalha
eu não me entrego

ela diz que me quer 
desdenho esse martírio

mas não me iludo
sei que ela me toca
com seus longos dedos finos
e dia após dia
sua lâmina incisiva
ceifa a minha vida
aos poucos

e pedaço por pedaço
leva meu decrépito corpo

e por fim
levará a minha alma por inteiro

e com seu doce beijo
vou me despedir
sorrindo

Jussara Pires


segunda-feira, 2 de março de 2015

NÃO É PÓ... É FUMAÇA!



É
a pior doença é a que corrói sem dor
ela destrói tudo de bom
que por dentro restou
e quando menos se espera
vira pó

mas espera!
se souber esperar
espera!
porque a vida golpeia
golpeia
mas não mata
ela maltrata
machuca
mas ensina a viver

e viver?
só como água
fluindo
vazando
sem deixar se conter
por nada
nem por ódio
ou por amor

pois o ódio e o amor
se misturam
se entrelaçam
se embaraçam
tão apertado
que às vezes chega a sufocar
é preciso dar um tempo
para puder respirar

então o que resta?
chorar?
chorar é bom
lava e faz bem à alma
purifica
acalma
mas nunca se deixe arrepender
nunca!
só se for do que magoa
mesmo quando a intenção é boa
pois
de boas intenções
o inferno se alastra

e quanto ao coração?
quando da cabeça discordar
é melhor ver a razão
pois ninguém faz ninguém sofrer
em vão

e mesmo quando tudo parece distanciar
aproxima
mesmo que escureça
empreteça
e pinte tudo de negro
porque o negro
é a cor mais bela
pois é
a mistura de todas elas

e se
em um deserto
águas convidam a se desnudar
e a banhar-se nelas
só pode ser ilusão
pura imaginação
por mais feliz que a faça
é bom desconfiar
pois tudo
tudo!
pode se desfazer
em fumaça...

Jussara Pires