quarta-feira, 24 de junho de 2015

EITA, SÃO JOÃO BOM DANADO!


Bandeirolas e balão
colorindo o salão
palhas de coqueiro
enfeitando o terreiro

a mesa
toda tomada
de amendoim cozido
amendoim torrado
canjica
lelê
pé de moleque
pé de moça
queijada
e cocada
eita!

e tem também mungunzá
e bolo de aipim
de carimã
de tapioca
e de fubá
sem falar
do milho assado na brasa
do milho cozido na palha
bom-bocado
pamonha
e quindim

aí vem a cachaça...
o quentão
a cerveja gelada
e licor de tudo que há
jenipapo
tangerina
uva passa
tamarindo
cajá
e cravo

nossa!
que pecado!

para a molecada tem
bomba
chuvinha
traque de massa
vulcão
e estrelinnha

e na brasa
 o churrasco assa
e cheira
humm!
e como cheira!
é porco
é carneiro
picanha
costelinha
com farofa
arroz carreteiro
e uma saladinha

e o Gonzaga chora
lá fora
um bom baião
o tilintar do triangulo
o surdo da zabumba
o reco-reco animado
e a sanfona que deslumbra

começa então
o arrasta pé
com um bom xaxado

a moça chega
toda faceira
para dançar quadrilha
com um laço no cabelo
exalando perfume
da flor de laranjeira

o cabra assanhado
toma banho com caco de telha
e vem todo esticado
até a bota brilha
com tanta brilhantina  

e em volta da fogueira
o forró castiga

eita, coisa boa, sô!
pena São João
não ser a vida inteira!

Jussara Pires


Foto de: Jussara Pires


sábado, 13 de junho de 2015

ESTAMPIDO!

ESTAMPIDO!

Mãos erguidas
acaloradas vozes
protestam
querem respeito
querem justiça

de repente uma explosão
 gente correndo
para todos s lados
um pé descalço
uma sandália que fica
óculos quebrado
bandeirolas caídas
que embaraçam
em pernas corridas
em meio a fumaça
e olhos ardidos

gritos
empurrões
uma criança que solta a mão
uma mãe que vai com a multidão
empurrada
na enxurrada
 que passava no lugar certo
na hora errada
procura o filho
 desesperada

de repente
uma bala perdida
encontra
um alvo perfeito
um peito
quem é a vítima?
quem é o culpado?
mas a quem importa?

lá vai a mãe
com o coração na mão
espedaçado 
como vidro trincado
pura ilusão
pensar que ele fosse blindado

chora
o choro sentido
uma mãe que perde um filho
e ninguém oferece a mão
é só mais um corpo
estendido no chão
mais um anjo
que vai para o céu
e o sangue que borbulha
borbulha em vão

o descanso de quem vai
e o descaso de quem fica

Jussara Pires