sexta-feira, 6 de novembro de 2015

NOS BRAÇOS DE MORFEU



Doces odores
da murta
do alecrim
e da mirra
incendiavam o jardim

o balanço suave
da rede
e o som das árvores
ao vento
embalavam a criança
em um sono sem fim

a brisa
 de momento em momento
acariciava sua pele
e revolvia as folhas secas
 da acácia
em um redemoinho
dançante

em um canto
uma singela obra-prima
uma fonte

por um pote
a água escorria
entre as mãos
de uma camponesa
deslumbrante

do pote
a água caía
em uma tigela rasa
onde dois cardeais
chilreando
e batendo suas asas
faziam um festim
de pura alegria

da tigela
a água descia em cascata
entre
heras
samambaias
e belas-emílias

desembocando
em um lago de seixos 
que refletia
os últimos raios do dia

já no lago
resvalava
em perfeita sincronia
um cardume
de pequenos peixes
coloridos

e
apesar dos olhos fechados
a criança sorria
com a poesia
desse paraíso

Jussara Pires


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